Bob, Fallout, e o Destino Manifesto.

Bob com chapéu e sem nariz.

Eu trabalho com um esqueleto em minha mesa. Não é exagero. Ele se chama, digo, eu o chamo de Bob. É ele quem ilustra esse texto em close up. Falo de Bob porque ele me fez lembrar o cara-sem-nariz da série Fallout, exibida no sistema de stream PrimeVídeo.

Não sou o único a trabalhar. A indústria do cinema também está fazendo sua parte (mas a parte dela é em dólar!!). Vejam-se as mais recentes produções evocando a temática da aniquilação nuclear: Oppenheimer e Fallout. Elas não estão aí nesta quadra da história à toa. Mas não vou falar de Cillian Murphy e seu chapéu Fedora. Prefiro falar de Bob e seu chapéu de palha. O que me recorda aquele cara-sem-nariz que também usa chapéu, modelo cowboy. Voltemos à série, pois.

Para não perder o hábito dos velhos clichês cinematográficos, a série cataclísmica mostra-se um entulhado de lugares-comuns para as teorias de conspiração: o maçônico número 33; a simbologia do trigo moído e renascido; os três pontinhos invertidos no cartaz da sala dos supervisores; a crítica monetária nas tampinhas valiosas postas no balcão; os iluminados sobreviventes dos bunkers, separados e poupados da destruição para assumirem o Destino Manifesto de ‘salvar a América’, afinal, ordo ab chao. É um verdadeiro kit chapéu-de-alumínio. Alguém empresta a cabeça?

Tanto Oppenheimer quanto Fallout cumprem seu papel. Conseguem reviver o gatilho mental do stress nuclear pré-Baía dos Porcos. O mundo volta a demonizar os russos (CCCP), que ameaçam o american way of life dos anos dourados sob a presidência de um Democrata, a Guerra dos Seis Dias se repagina na retomada de Gaza, uma grande depressão ocidental se aproxima, e as revoltas pós-colonais na África entornam o caldeirão. A epopeia humana é um grande remake.

Duas palavras me ocupam a mente enquanto assisto Fallout: tecnicismo e transumanismo. Os clichês, o remake, o stress, os chápeus, servem apenas para dar ocasião a argumentos que nos desviam do principal. Os distúrbios acima indicados que assolam o mundo de hoje, tanto quanto de antes, têm em comum o emprego de ferramentas que se tornam extensão, complemento ou absorção integrativa do ser humano. Subjuga, controla e destrói, corpo e alma. Porém, o mundo de antes não experimentou o grau de domínio coercitivo que hoje se avizinha. A armadura opressiva do cavaleiro Titus muito bem representa isso.

Destaque-se ainda o bracelete metálico onipresente nos humanos (vide Fallout) como extensão corporal nos inserindo no mundo digital, tal qual os smartphones que não nos largam (ou não os queremos largar?!), prenunciando um cotidiano marcado pela implantação dos chips neurais e as formas de pagamentos por aproximação dos circuitos subcutâneos introduzidos na palma da mão. E quem não estiver preocupado com o sincronismo nazistoide dos cães robotizados (CyberDog) e dos humanoides (Atlas) da Boston Dynamics e MIT, perfilados e aguardando os comandos de caça, não entendeu ainda o enredo desse filme.

Essas tecnologias são assim como os vários termos estrangeiros enxertados nesse texto: muletas, ferramentas acessórias para suplantar uma deficiência. No caso de hoje, minha deficiência textual. No caso de amanhã, nossa dificuldade em garantir liberdades individuais (nada robóticas ou impessoais). Seremos tão deficientes, desumanizados e controlados quanto o esqueleto na minha mesa de trabalho. Bob será nosso destino já manifesto.

Gilmar Araújo Gomes

contato@gagomes.com

Sergipe, 17 de abril de 2024.

Do You Love Me? Boston Dynamics. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=fn3KWM1kuAw>.

Evolution of Boston Dynamic’s Robots [1992-2023]. Flatlife. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Rdm2ggtFvmQ>.

PALMEIRA, Carlos. Xiaomi apresenta cyberdog, cão-robô ao estilo Boston Dynamics. Tecmundo. 10 ago.2021. Disponível em: <https://www.tecmundo.com.br/produto/222754-xiaomi-apresenta-cyberdog-cao-robo-estilo-boston-dynamics.htm>.

Testing 9 New Mini Cheetahs. Biomimetics MIT. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=G6fMV1UPzkg>.

Artigo ‘O mito fundante da religião civil: considerações sobre o mito dos metais na República de Platão (Pl. Rep. 414b-415c)’

Encerrando o ano de 2022 mais um texto de minha autoria foi publicado, confirmando que esse foi um período bem produtivo em leitura, escrita e meditação nos temas de interesse das minhas pesquisas.

O artigo publicado, “O mito fundante da religião civil: considerações sobre o mito dos metais na República de Platão (Pl. Rep. 414b-415c)“, representa apenas uma vertente do grande tema modernamente estudado pelo norte-americano Robert Bellah, a religião civil.

No texto específico, eu considerei o modo como os argumentos de Jean-Jacques Rousseau, expostos no capítulo oitavo do livro IV de sua obra Contrato Social, ligam-se às condutas incentivadas por Platão na República.

Evitando uma leitura anacrônica, considerei como argumentos presentes no texto do genebrino já ´foram apresentados nas ideias expostas no texto grego antigo, notadamente, o modo como o mito dos metais serviu de justificativa religiosa para domínio dos cidadãos —-.

Evitando uma leitura anacrônica, o que se objetiva nessa reflexão é apresentar aproximações que se notam

concepções que se assemelham às

Continuemos com a pesquisa.

ad astra per aspera

Artigo ‘LEO THE HEBREW AND A KABBALISTIC READING OF PLATO’S TIMAEUS’

Com o artigo que dá título a esta postagem, percebo que 2022 termina academicamente produtivo. Dessa feita, trata-se do primeiro artigo que publico em língua estrangeira e em coautoria com o prof. Dr. Rodrigo Pinto de Brito.

LEO THE HEBREW AND A KABBALISTIC READING OF PLATO’S TIMAEUS

Resultante de uma ênfase que tangencia minha pesquisa, considero nesse texto a percepção que filósofo judeu sefardita Leão Hebreu (Judá Abravanel) tem do texto platônico Timeu, lido à luz de suas pressuposições cabalísticas. A experiência acadêmica do prof. Dr. Rodrigo Brito fortalece as argumentações e robustece as análises filosóficas que esse tema exige.

Segue o Resumo:

“This paper aims to consider the specific excerpts in which Plato’s Timaeus was interpreted by the philosopher and Kabbalist Judah Abravanel, also known as Leo the Hebrew in his major work, the Dialogues of Love. From his experience of solitude lived while in exile in Italy, the Portuguese Jew composes a work written in a structure of double meanings, esoteric and exoteric, through which he interacts with the Neoplatonic Renaissance community of his time while communicating with the Kabbalistic tradition from which he descended as a Sephardic. Interpreting Timaeus in the light of his ancestral cosmogony, Leo the Hebrew wants to prove that Plato was initiated into the teachings of Moses and, therefore, must be included as a Kabbalist.”

ad astra per aspera

 

Artigo ‘PRAZER E DOR NA COCEIRA DE SÓCRATES’

Mais um texto meu publicado.

PRAZER E DOR NA COCEIRA DE SÓCRATES: Uma leitura comparada nos diálogos Fédon (Pl. Phd 60b1-5) e Filebo (Pl. Phlb 46a8-11).

A temática é inusitada: Sócrates, mentor de Platão, preso e aguardando cumprimento de sentença de morte, coça sua perna no último dia de vida e começa a filosofar diante de seus discípulos abalados pela despedida. Esse gesto, registrado no diálogo Fédon, assemelha-se ao ocorrido no diálogo Filebo. A dor em Sócrates cobra coceira que gera prazer, que enseja oportunidade para filosofar com amigos que sentem dor pela partida, enquanto o filósofo sente prazer com a mesma situação.

Entre aproximações e distanciamentos, analiso os termos gregos utilizados e as reflexões resultantes desses episódios, bem como o modo dos termos gregos se localizarem na estrutura de pensamento da filosofia de Platão, visto que Fédon e Filebo estão cronologicamente equidistantes no conjunto da obra do mais famoso aluno de Sócrates.

Boa leitura!

 

Estágio docente

Prédios mais altos precisam de mais tijolos. Continuamos a construir. Nesta etapa da obra, ministrei aula na UnB, Pavilhão João Calmon, sala 53, sob a supervisão do competente prof. Dr. Henrique Modanez. Com sua costumeira generosidade, cedeu espaço em aula e partilhou seu programa acadêmico para que eu pudesse interagir conteúdo com seus alunos. ‘Mito e Religião na Grécia Antiga’ foi o tópico que norteou as aulas. Ao professor titular e aos alunos, minha gratidão!

Vim, vi, venci.

SDG